A história de um menino de cinco anos, condenado por um tribunal em Jerusalém a não receber o tratamento que poderia salvar sua vida, não é apenas um fato político; é uma mancha na consciência da humanidade. Ao negar a um pequeno paciente com câncer agressivo a entrada em Israel para um transplante de medula óssea — procedimento indisponível em Gaza ou na Cisjordânia — a justiça israelense assinou uma sentença que ignora a urgência médica em favor de um carimbo burocrático.
O que causa mais dor e estranhamento é ver tamanha desumanidade partir de um governo que representa um povo herdeiro de tradições espirituais tão profundas. A formação judaica, pautada na fraternidade e no ensinamento de que a preservação da vida deve estar acima de quase todos os outros mandamentos, parece ter sido esquecida nos gabinetes de segurança. Como conciliar a imagem de um povo escolhido para carregar os ensinamentos de Deus com a frieza de um magistrado que afirma não haver “distinção significativa” entre uma criança moribunda e uma restrição de fronteira?
A decisão do juiz Ram Winograd é o triunfo da rigidez sobre a compaixão. Ao argumentar que o endereço de registro em Gaza impede o acesso à cura — mesmo que a criança não more lá há anos —, o Estado de Israel utiliza a burocracia como uma extensão do conflito armado. Não se trata de segurança; uma criança de cinco anos em um leito de hospital não oferece risco a nenhuma nação. Trata-se de uma política de exclusão que, segundo a Organização Mundial da Saúde, já deixou um rastro de 900 mortos à espera de socorro.
É aterrador saber que, enquanto médicos triplicam os registros de óbitos por câncer no território devido ao bloqueio de quimioterápicos e transferências, o aparato estatal israelense assiste a tudo de braços cruzados, protegendo-se atrás de leis que, na prática, punem os mais inocentes. A mãe, que já perdeu o marido para a mesma doença, agora assiste à agonia do filho diante de um muro que a medicina não consegue atravessar.
Israel, como Estado e como símbolo de resiliência, precisa refletir se o caminho da sobrevivência justifica o abandono da ética mais básica: a de não deixar uma criança morrer quando a cura está ao alcance das mãos. O mundo olha para Jerusalém com tristeza, vendo que a política do medo está conseguindo o que nem a doença deveria ser capaz de fazer: apagar a luz da esperança no olhar de uma criança que só queria o direito de crescer.


